O corte é uma metáfora muito mais próxima dos meus avós do que o oceano.
ou como Glissant me ajuda a pensar nos meus ancestrais
Lendo sobre Édouard Glissant, no catálogo da exposição no Tomie Ohtake, fiquei pensando na imagem do oceano, o oceano enquanto túmulo e ao mesmo tempo enquanto ventre, travessia fundadora da ruptura e do abismo que separou as paisagens de origem com a nova paisagem, paisagem esta nomeada com uma língua diferente, a palavra vinda de uma linguagem desconhecida e colonizadora. Fiquei pensando nas violências do processo colonizador em todas as suas instâncias e desdobramentos no tempo-espaço. A imagem do oceano e da paisagem perdida, a paisagem da origem, é muito rica e cheio de camadas de significado, o que ajuda no processo de nomear as dores, nomear as violências, codificar a experiência e tentar aceder à uma parte verdadeira da História, feita por muitos histórias e por muitas fissuras. Na verdade as várias histórias fissuram a História, desmantelando as possibilidade de redenção ou de entender o mundo por apenas uma via, uma perspectiva, uma raiz. Fiquei pensando também como que o caso brasileiro é complexo e tento fazer um exercício de pensar nos meus avós.
Nascidos no sertão baiano, em terras muito pequenas, com dificuldades tremendas, seca e fome, filhos da pobreza que se foi assentando no território depois da invasão/extração/escravização/colonização. Penso em como esta mesma pobreza deve vir de uma fissura enorme nessa história: nasceram num contexto onde toda a possibilidade de poesia, de formação de comunidade, de pertença e imaginação foram arrancados da paisagem, em como que o imaginário foi roubado, destituído com o assombro da catequização. E penso que no sertão baiano não há mar à vista, não há uma possibilidade de dialogar com o oceano diretamente, como é o caso da Martinica de Glissant em que a imagem do mar é uma constante. O mar, mesmo sendo o abismo, é também aquilo que conecta e ao mesmo tempo separa uma terra da outra, um aqui com o lá, um antes e um depois. Para os meus avós não existia um antes, uma separação, é como se a subjetividade pudesse apenas ser ativada pela fé religiosa, que exclui e reprime qualquer vestígio de ligação com os saberes não-europeus, com as cosmologias não-brancas, o campo de visão ou o mundo dos meus avós era definido e organizado através da religião cristã, imposta na vida deles pelos pais e ancestrais, que por sua vez foram invadidos e colonizados por jesuítas.
Essa é a trajetória do corte. E esse corte é a violência que ainda persiste, mesmo inaudível por vezes, em seus descendentes diretos, afetando relações, modos de vida mais suscetíveis ao extremo individualismo capitalista, vidas onde a poesia e a imaginação ficaram nos anos da infância e toda a realidade é guiada por uma incessante necessidade de julgamento e comparação. Sinto este corte como uma metáfora possível para conseguir pensar sobre ancestralidade a partir dos meus avós, sem cair no erro de simplesmente ver o passado com os olhos do presente, ou seja, romantizando ou categorizando com categorias que emergiram muito tempo depois. O corte é uma metáfora muito mais próxima dos meus avós do que o oceano.
O trauma oceânico ainda permanece, matamorfoseado em outros novos traumas que foram sendo criados neste processo de mestiçagem, apagamento, imposição e demonização da alternativa (da poesia, da imaginação, da liberdade), mas é o corte feito pela catequização onde encontro proximidade maior para pensar sobre ancestralidade e territorialidade. Se o cristianismo, no caso mais específico, o catolicismo, guilhotina o passado (os saberes, a epistemologia, a espiritualidade, a cultura), que deveria ser um passado em constante presença (tempo espiralar), transformando a visão da continuidade apenas através da lente do dogma, o passado então é esquecido, rejeitado, reprimido, definhando qualquer possibilidade de verdadeira sensação de pertença porque gera uma sensação nova: dissonância entre corpo e paisagem e entre corpo e identidade. Como que se poderia pensar em identidade étnica ou racial se o passado está oculto, se não faz parte da equação do presente, se é reprimido ao mais mínimo reconhecimento?
O espelho, tecnologia colonial, não reflete o que deveria refletir, surge uma dissonância cognitiva e um desejo: pertencer à cultura dominante. Tenho pensando em como o corte é sentido por mim diariamente, em como eu não o enxergava por muitos e muitos anos. Tenho pensado em como a lógica do corte suscita nos guilhotinados uma incessante sensação de medo, de desajustamento, de uma espécie de disforia do seu lugar no mundo, de distorções da realidade que o podem levar constantemente ao ódio, uma metamorfose do medo. Penso que muitas vezes o ódio ou medo que sentem, sentem-no por si próprios, projetando no exterior uma sensação infinita de desconforto com o mundo e uma enorme dificuldade de se relacionar com o diferente. Penso na ideia de diáspora, ou melhor, na ideia de êxodo, e na incomensurável dificuldade da segunda geração de migrantes em olhar para o próprio problema, filhos de migrantes precisam se assimilar, encolher para caber num território que os odeiam, uma cultura que não os aceitam e passam a perpetuar uma série de comportamentos, reações, modos de viver que só reavivam e alongam a extensão do corte.
A violência se manifesta de maneiras menos gráficas, aparenta uma ordem que ignora as bagunças inerentes ao caos do mundo ou ao caos-mundo de Glissant. A violência se manifesta na auto-imposição de controle e na necessidade de controle do outro, do seu corpo e de sua liberdade, distorce o reflexo no espelho e preenche as lacunas (os espaço-entre, os silêncios, as perguntas sem resposta) com o medo e o ressentimento. Uma vez decepado, como recuperar o que ficou para trás, o passado? Valerá a pena? Em que medida pensar o antes me ajuda a entender a minha própria condição, o meu próprio corpo e por consequência, o que faço quando faço arte? Quantas gerações serão necessárias para curar a ferida? Como passar do grito ao discurso, se eu não ouço gritos? Ou serei eu que vou ter de gritar para depois transformar o grito em discurso? Mas como gritar uma dor que não é totalmente minha?

